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dev em manaus (sim, a da floresta)


Quando eu digo que moro em Manaus, as pessoas imaginam a floresta. Justo, ela está aqui, dois milhões de pessoas cercadas por ela. O que elas não imaginam é um dos maiores polos industriais de eletrônicos do Brasil, e escondido dentro dele, um ecossistema de P&D que moldou todo desenvolvedor criado nessa cidade. Inclusive eu.

a zona franca

Manaus é zona franca desde 1967, criada pelo Decreto-Lei 288 pra ocupar e desenvolver a Amazônia sem depender só de floresta em pé. Incentivos fiscais trouxeram marcas globais pra fabricar aqui: TVs, smartphones, motos, ar-condicionado. Uma parte enorme dos eletrônicos vendidos no Brasil é montada a poucos quilômetros de onde eu escrevo isso, dentro do polo industrial administrado pela Suframa.

A parte que importa pra desenvolvedores é uma regra amarrada a esses incentivos, a Lei de Informática: empresa que fabrica bem de informática ou telecom aqui só mantém o benefício fiscal se reinvestir uma fatia da receita bruta em pesquisa e desenvolvimento local. Parte desse investimento pode ficar dentro da própria empresa, e parte precisa ir pra instituição credenciada na região, universidade, instituto de ciência e tecnologia. Não é marketing, não é doação. É P&D obrigatório, na região.

o que essa regra criou

Essa única obrigação construiu um ecossistema inteiro de institutos de pesquisa na cidade. A Samsung financia o Sidia (ou pelo menos a maior parte do instituto e seus projetos, visto que é aberto a outros clientes há algum tempo também), onde eu trabalho hoje. Outras marcas como Positivo e Motorola financiam institutos como o Eldorado, INDT e a FPF Tech, e a lista continua. São casas de engenharia de verdade: software mobile, IA, sistemas embarcados, laboratórios de teste, times de centenas de pessoas trabalhando em produto que sai pro mundo inteiro, não só pro Brasil.

Eu não vou falar do que se constrói dentro deles, isso é parte do acordo que você assina. Mas a escala é real, e o trabalho também.

todo dev daqui quer entrar

Aqui está a parte que quem é de fora nunca vê: se você foi criado em Manaus e aprendeu a programar, você cresceu querendo trabalhar num desses institutos algum dia. Eles são o teto visível de uma carreira tech local. Os estágios, o primeiro salário sério, o crachá que a sua família reconhece. Outros lugares crescem com sonho de FAANG; aqui a gente cresce com sonho de instituto.

Tem até programa formal pra isso. O Samsung Ocean, gratuito, ensina mobile, IoT e IA pra quem está começando, e boa parte de quem passa por ele mira uma vaga no Sidia depois. Não é o único caminho, mas é o mais visível, e mostra o quanto essa gravidade é institucionalizada, não só cultural.

Essa gravidade molda tudo. Estudantes de computação organizam as escolhas em função de entrar, portfólios são montados pensando nos institutos, e quem consegue vira a referência da próxima turma. Eu também organizei as minhas escolhas em função disso, e funcionou. Parte do motivo desse blog existir é dizer em voz alta que esse caminho é real.

pública ou privada

Antes do instituto vem a faculdade, e aqui a escolha é tratada como mais simples do que é.

públicaprivada
entradavestibular concorrido, vaga limitadasem vestibular, matrícula garantida
bolsa de iniciação científica e extensãoabundante, edital abrindo o ano inteiroescassa, e o que existe costuma vir embrulhado em exigência pensada pra um time inteiro, não pra um aluno sozinho
acesso a sistema de produção realcomum, via estágio e bolsa dentro dos próprios setores da universidaderaro, depende de achar por fora da grade inteira
tempo até formarpode atrasar, disciplina lotada, fila de esperaprevisível, sem fila
custogratuitamensalidade, a menos que bolsa tipo ProUni cubra

Pra quem precisa do diploma rápido pra sobreviver, ou cuja família não aguenta carregar mais um ano de estudo sem renda, a coluna da privada não é escolha menor, é muitas vezes a única realista.

O que os dois lados erram é achar que o timbre do diploma é a alavanca. O que decide se a faculdade vira histórico de verdade é se você cai em algum lugar, pública ou privada, que continua te entregando trabalho de produção pra tocar. Tem gente que forma em pública sem nunca ter posto nada real no ar, e tem gente de privada carregando portfólio mais pesado que muita contratação de instituto.

O meu próprio caminho ilustra os dois lados ao mesmo tempo: a FAMETRO me deu a velocidade da privada, bolsa integral pelo ProUni direto, sem vestibular concorrido no caminho. A UEA me deu o acesso da pública, anos ficando como funcionário dentro da reitoria, primeiro no RH, depois no próprio centro de TI, depois na Pró-Reitoria de Extensão, construindo o tipo de sistema de produção que nunca aparece em ementa de disciplina.

nenhum caminho te forma sozinho

A divisão pública ou privada lá de cima nem é onde a maioria das pessoas realmente acaba. Um padrão comum por aqui: alguém começa numa pública, e no meio do caminho troca pra uma privada, às vezes EAD, porque já começou a trabalhar na área, muitas vezes em um dos grandes institutos, e precisa da flexibilidade pra terminar o curso enquanto trabalha.

Nenhum dos dois caminhos sozinho faz um bom profissional. Muita hard skill e soft skill pesa tanto quanto o nome da faculdade no diploma, às vezes mais. O que o caminho mais difícil da pública compra, na maior parte, é um começo mais bruto, mais cobrança, mais reprovação de propósito dentro do sistema, e isso produz alguém com casca de mercado de verdade, base robusta, experiência em pesquisa acima de tudo. O que o caminho mais fácil da privada compra é tempo: o sistema de retenção lá é feito pra reprovar o mínimo possível, então passar é realmente mais fácil, e essa folga libera hora pra buscar conteúdo por fora. Costuma favorecer quem já sabe qual área específica quer e quer se especializar cedo.

Esse fui eu. Eu queria offsec desde o início, e ter bastante tempo livre foi exatamente o que me deixou correr atrás por fora. Hoje, se existe uma lacuna, é uma base melhor em engenharia de IA no geral: ML, DL, CV, NLP, LLMs. Ainda tenho tempo suficiente pra correr atrás disso por conta própria, não tanto quanto eu gostaria, mas dá. Ter tempo de sobra, porém, não é a mesma coisa que usar esse tempo direito: sem prazo e sem cobrança externa, ele também sabe virar agitação sem direção nenhuma, isso vira post à parte. Correr atrás de NLP forte enquanto estrutura de dados e algoritmos ficou rasa é outra história, pra outro post ainda.

diploma não deve nada a ninguém

Teve uma conversa no trabalho que não sai da minha cabeça: alguém comentou a quantidade de motorista de aplicativo em Manaus que é graduado em tecnologia. Não é exagero, é observação direta, e não é caso isolado de colega contando história, é gente que a gente esbarra.

Essa distância começa exatamente onde o ponto anterior parou. Bolsa de pesquisa, projeto de extensão, uma chance de sistema de produção de verdade, nada disso é distribuído igual, nem dentro da mesma instituição, quanto mais entre uma pública e uma privada. Quem não vai atrás fica formado com o mesmo papel de quem foi, e nada mais pra mostrar.

O mercado não deve nada a ninguém só por ter um diploma. Formar em ciência da computação, ou em sistemas de informação, não é senha, é ponto de partida. O instituto, a vaga boa, o salário que compensa o curso, isso tudo se disputa depois do diploma, não vem com ele. E a disputa não é justa nem uniforme: quem sai da faculdade só com o diploma na mão, sem nunca ter posto sistema em produção, sem nunca ter disputado bolsa, chega na fila atrás de quem já chega com histórico.

Quem cresce aqui sonhando com instituto precisa saber disso antes de sonhar: o papel abre a porta da sala de espera, não a da sala. O que te tira da sala de espera é o que você fez enquanto ainda estava esperando.

Ainda que a cidade tenha um ecossistema robusto de P&D que gira a economia local no âmbito de tecnologia, o mercado não te deve absolutamente nada só porque você tem um diploma.

daqui

O trabalho remoto fez a localização importar menos, mas eu quero que mais gente saiba que esse ecossistema existe, porque de fora ninguém imagina. A floresta também tem GPU.